Luto

O adeus a Laura Cardoso: a última cena, o eterno aplauso

terça-feira, agosto 18, 2026 · Gabriel Diniz

Há despedidas que parecem maiores do que a própria morte. Porque existem pessoas que não pertencem apenas ao seu tempo. Pertencem às nossas lembranças, às nossas tardes, às nossas noites, às histórias que aprendemos a amar.

Laura Cardoso partiu na noite desta segunda-feira, aos 98 anos, em São Paulo, depois de uma vida inteira dedicada à arte.

E talvez seja difícil dizer adeus a alguém que, de tantas maneiras, nunca foi apenas uma atriz. Laura foi presença. Foi voz. Foi olhar. Foi aquela companhia silenciosa que entrava em nossas casas pela televisão e, sem pedir licença, acabava fazendo parte da família.

Durante mais de sete décadas, atravessou o rádio, o teatro, o cinema e a televisão, construindo uma trajetória que se confunde com a própria história da dramaturgia brasileira. Foram mais de 100 trabalhos e mais de 60 novelas, além de personagens que ficaram guardados na memória afetiva de várias gerações.

Quem não se lembra de Isaura, de Mulheres de Areia? De Guiomar, de A Viagem? Personagens que talvez tenham terminado suas histórias há muitos anos, mas que continuam vivendo dentro de nós.

Porque esse é o mistério bonito da arte: o artista parte, mas aquilo que ele despertou na gente permanece.

Laura sabia disso. Talvez por isso falasse da morte com tanta serenidade. “A gente se aposenta quando vai embora”, disse certa vez. E foi embora sem medo, depois de uma vida longa, intensa e inteira.

Ficam as filhas, os netos, a família. Ficam os colegas, os admiradores, os palcos, as telas. E ficam, sobretudo, as memórias de quem um dia parou diante da televisão para acompanhar uma história e encontrou, na interpretação daquela mulher, um pedaço da própria vida.

Hoje, a dramaturgia brasileira fica mais silenciosa.

Talvez em algum lugar, porém, uma nova cena esteja começando.

E Laura, que passou a vida inteira emprestando sua alma a tantas personagens, finalmente descansa.

A última cena chegou. Mas a história de Laura Cardoso não termina. Porque algumas estrelas não deixam de brilhar quando as luzes se apagam, apenas passam a iluminar a memória.

Por Gabriel Diniz

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