Há despedidas que chegam devagar, como se o tempo, antes de levar alguém, nos desse alguns instantes para reconhecer tudo o que aquela presença significou.
Nesta terça-feira, aos 91 anos, Glória Menezes partiu em casa, deixando para trás uma trajetória que se confunde com a própria história da televisão brasileira. Mas talvez seja pouco dizer que ela foi atriz. Glória foi memória. Foi rosto, voz, gesto e emoção de tantas histórias que entraram pela sala de nossas casas e ficaram morando em algum lugar dentro de nós.
Ela chegou à televisão no fim dos anos 1950, quando tudo ainda começava a ser escrito. Em 1959, estreou em Um Lugar ao Sol. Pouco depois, ao lado de Tarcísio Meira, ajudaria a inaugurar um novo tempo da teledramaturgia ao protagonizar 2-5499 Ocupado, a primeira novela diária da televisão brasileira.
E a vida, curiosamente, também lhe escreveu um roteiro de amor. Nos bastidores de As Feiticeiras de Salém, conheceu Tarcísio. Vieram quase seis décadas compartilhadas, entre palcos, estúdios, novelas, filmes e uma história de amor que atravessou gerações.
Glória Menezes foi muitas mulheres. Esteve em Irmãos Coragem, Guerra dos Sexos, Corpo a Corpo, Senhora do Destino, Páginas da Vida, A Favorita e tantas outras produções que ajudaram a construir a televisão que aprendemos a assistir.
Também esteve no cinema, em O Pagador de Promessas, filme vencedor da Palma de Ouro em Cannes, levando seu talento para além das fronteiras do país.
Mas é impossível falar de Glória apenas pelos números, mais de 40 novelas, minisséries, seriados, filmes e décadas de carreira. Porque a arte nunca cabe numa contagem. Ela cabe na saudade.
Naquela abertura de novela que anunciava uma nova história. Na voz que reconhecíamos antes mesmo de olhar para a televisão. Nas personagens que, de tão bem vividas, pareciam vizinhas, parentes, amigas antigas. Nos capítulos que terminavam e nos deixavam esperando pelo dia seguinte.
Talvez seja isso que os grandes artistas façam: partem da vida, mas não partem completamente.
Ficam nas cenas. Ficam nas personagens. Ficam nas lembranças de quem um dia parou diante da televisão para acompanhar uma história.
Glória Menezes agora deixa o palco. E, como acontece com os grandes, a cortina se fecha apenas para ela.

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