Há pessoas que passam pela vida ensinando palavras. Outras, sem perceber, ensinam a vida inteira a encontrar sentido nelas. Vicente Santos, o nosso querido Vicentinho, foi desses mestres que não cabem na moldura de um quadro-negro, nem se despedem por inteiro quando o último capítulo se encerra. Neste domingo, 25 de outubro, aos 77 anos, ele partiu, deixando Recife um pouco mais silencioso e uma geração inteira com saudade de suas aulas.
A causa da morte não foi divulgada. Mas há algo que a morte não consegue apagar: a dimensão de uma vida dedicada a ensinar.
Foram mais de cinco décadas dedicadas à Língua Portuguesa, à redação, à literatura e, sobretudo, ao ofício de ensinar. Mais de 50 anos entre palavras, cadernos, provas, sonhos e a ansiedade de tantos jovens que carregavam, dentro da mochila, a esperança de conquistar uma vaga na universidade. Para milhares de estudantes, Vicentinho não foi apenas um professor. Foi parte de uma época, de uma juventude, de um sonho que começava a ganhar forma entre regras gramaticais, interpretações de texto e redações escritas à mão.
Passou por salas de aula do Colégio Boa Viagem, do Dom Bosco, do Colégio União, do Marista, do Núcleo e de tantas outras instituições onde sua voz encontrou ouvidos atentos. Mas foi também fora dos colégios, nas famosas turmas de aulas isoladas, que seu nome ganhou um lugar especial na memória de quem viveu a efervescência dos vestibulares nos anos 1990.
Foi naquela década que nasceu o Curso Vicente & Maísa. Ao lado da professora Maísa, Vicentinho dividia conhecimentos, coordenava turmas e ajudava a preparar jovens para uma das provas mais importantes de suas vidas. Eram tempos de apostilas, canetas coloridas, anotações apressadas e noites de estudo. Tempos em que a aprovação no vestibular era uma conquista celebrada em família, e o nome do professor que ajudara a abrir aquela porta permanecia guardado para sempre.
A vida, porém, também impõe suas pausas dolorosas. Com a perda precoce de Maísa, foi preciso encontrar forças para continuar. E Vicentinho continuou. Ao seu lado, a professora Flávia Suassuna, uma das grandes referências pernambucanas em Literatura e Redação, assumiu a parceria. Nascia, então, o Curso de Português Vicente & Flávia, na Avenida Montevidéu, no bairro da Boa Vista, que consolidou ainda mais uma história construída com dedicação, conhecimento e compromisso com a educação.
Quantos estudantes passaram por aquelas salas? Quantas redações receberam suas correções? Quantas vezes uma explicação sua ajudou alguém a compreender não apenas uma oração subordinada, mas também a importância de persistir quando o futuro parecia incerto?
É impossível contar todas essas histórias. Algumas talvez tenham ficado esquecidas nas páginas amareladas de velhas apostilas. Outras permanecem vivas na memória de quem, tantos anos depois, ainda se lembra de uma brincadeira, de um conselho, de uma explicação dada com paciência ou daquela frase que, no momento certo, fez toda a diferença.
O tempo passou. Os estudantes cresceram, os vestibulares mudaram, as salas de aula ganharam novas tecnologias e muitos daqueles jovens seguiram caminhos que o professor jamais poderia imaginar. Tornaram-se médicos, advogados, jornalistas, professores, profissionais de tantas áreas. Construíram suas próprias histórias, mas levam, mesmo sem perceber, um pouco dos mestres que encontraram pelo caminho.
Porque ensinar é também isso: permanecer na vida dos outros sem precisar estar presente.
E talvez seja essa a mais bonita das lições deixadas por Vicentinho. A de que o conhecimento ultrapassa os limites de uma sala de aula e se espalha pelo mundo, multiplicado em cada aluno que aprende, em cada profissional que conquista seu espaço, em cada sonho que encontra uma oportunidade para acontecer.
Hoje, talvez muitos abram gavetas à procura de uma velha apostila. Talvez encontrem uma fotografia, uma anotação, uma lembrança perdida entre páginas de livros. E, por alguns instantes, voltem à juventude, à ansiedade do vestibular, ao Recife de outros tempos, quando o futuro parecia caber inteiro numa folha de redação.
Vicentinho, agora, é passado, presente e memória. É a voz que ecoa na lembrança de antigos alunos, o nome que desperta histórias e a saudade que se instala sem pedir licença.
A Língua Portuguesa tem regras para quase tudo. Tem sujeito, predicado, ponto final e reticências. Mas não há gramática capaz de explicar a ausência de alguém que ajudou tanta gente a escrever o próprio destino.
E, diante de uma despedida assim, talvez as palavras mais bonitas sejam justamente aquelas que ele ensinou a tantos estudantes a compreender.
Por Gabriel Diniz


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