Há homens que partem, mas deixam suas marcas impressas no tempo, nas ruas e na memória das cidades que ajudaram a construir. Carlos José de Melo Montenegro (Casé Montenegro), arquiteto por vocação e artista no olhar, despediu-se da vida aos 84 anos, vítima de complicações do Alzheimer, deixando para trás mais de cinco décadas dedicadas à arquitetura e ao urbanismo em Pernambuco.
Sua partida silencia uma voz, mas não apaga os traços de sua obra, que permanecem vivos na paisagem do Recife, como testemunhos de uma existência dedicada a transformar sonhos em espaços e projetos em histórias. Porque algumas pessoas, mesmo quando partem, continuam habitando os lugares que ajudaram a criar.
Ao longo de sua trajetória, Casé compreendeu a arquitetura como uma forma de dialogar com a cidade, respeitando sua identidade e as necessidades de seus habitantes. Seu trabalho foi além da construção de edifícios, contribuindo para a formação de espaços que acolhem histórias, encontros e gerações. Sua atuação profissional foi pautada pela ética, pela sensibilidade e pelo compromisso com a qualidade dos projetos.
Em reconhecimento à sua trajetória profissional, recebeu, em 1º de julho de 2026, a Medalha Zilda Caldas, concedida pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU-PE) aos profissionais que completam cinquenta anos de carreira e contribuem para a arquitetura pernambucana. Impossibilitado de comparecer à cerimônia por causa da doença, foi representado pela filha, Giovanna Montenegro, também arquiteta, que recebeu a homenagem em nome do pai.
O momento simbolizou não apenas o reconhecimento de uma carreira dedicada à profissão, mas também a continuidade de um legado familiar. Giovanna mantém viva parte dos ensinamentos e valores transmitidos por Casé, dando sequência a uma história em que a arquitetura representa mais do que um ofício: é também uma herança de conhecimento, dedicação e afeto.
A doença tornou os últimos anos especialmente difíceis para o arquiteto e seus familiares, impondo uma despedida gradual, marcada pela perda de lembranças e pelo afastamento provocado pelo Alzheimer. Ainda assim, sua história profissional permaneceu viva, reconhecida pelos colegas e pela instituição que o homenageou em vida. Sua trajetória deixa o exemplo de que a contribuição de um profissional pode ultrapassar os limites do tempo e permanecer na memória coletiva.
Adeus
A despedida aconteceu no Cemitério Morada da Paz, em Paulista, na Região Metropolitana do Recife, onde familiares e amigos se reuniram para o velório e a cremação. O momento foi marcado pela saudade e pelas lembranças de um homem que dedicou grande parte de sua vida à construção de espaços e à realização de projetos que ajudaram a compor a identidade urbana da capital pernambucana.
Casé Montenegro deixa sua marca na história da arquitetura pernambucana e na paisagem do Recife. Suas obras, seus princípios e os ensinamentos transmitidos à filha e aos colegas representam a continuidade de sua contribuição. Embora sua presença física tenha chegado ao fim, seu legado permanece nos edifícios que projetou e nas pessoas que tiveram a oportunidade de conhecer sua trajetória.
Porque a arquitetura também é uma forma de permanência. E, entre as ruas, os espaços e as construções do Recife, os traços de Casé continuarão presentes, preservando a memória de um profissional que ajudou a construir parte da história da cidade. Sua obra seguirá contando, silenciosamente, a história de quem compreendeu que construir é também uma maneira de cuidar, acolher e deixar algo de si no mundo.
Que o tempo preserve seus projetos, que a cidade reconheça seus traços e que a memória de sua vida continue inspirando aqueles que acreditam na arquitetura como expressão de sensibilidade e compromisso. Afinal, a morte encerra uma existência, mas não tem o poder de demolir tudo aquilo que o amor, o trabalho e a dedicação construíram.
Por Gabriel Diniz

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