O Nordeste amanhece mais silencioso nesta quinta-feira (24). Morreu o cantor Roberto Müller, o Pingo de Ouro, ídolo popular que fez da música um caminho para atravessar gerações, levando consigo uma voz que durante tantos anos ajudou a contar histórias, despertar lembranças e embalar a vida de seu povo.
Internado desde 13 de setembro, em um hospital do Recife, em decorrência de uma pneumonia, Roberto enfrentava há anos uma trajetória marcada por delicados problemas de saúde. Segundo a família, estava acamado havia pelo menos seis anos, após sofrer três AVCs. Aos poucos, o corpo foi silenciando, mas permaneceram a memória, a música e tudo aquilo que sua presença deixou pelo caminho.
Ao lado dele, nos últimos anos, estiveram familiares, cuidadoras e pessoas que transformaram cuidado em gesto de amor e dedicação. Entre elas, a compositora e empresária Dagmar Pereira, lembrada pela neta do cantor como “um anjo em nossas vidas”, por ter permanecido ao seu lado diariamente.
Trajetória
Há vozes que o tempo não consegue calar. Vozes que atravessam décadas, carregam histórias, despertam lembranças e permanecem guardadas no coração de quem um dia parou para ouvi-las.
Foi assim com José Ribamar da Silva, eternizado na música como Roberto Müller, o “romântico pingo de ouro do Brasil”. Nascido em Piracuruca, no Piauí, em 17 de fevereiro de 1937, descobriu ainda jovem que sua vida seria marcada pela música.
Em 1955, deu os primeiros passos de uma longa caminhada artística na Rádio Timbira, em São Luís do Maranhão. Vieram os palcos, os discos, as canções e uma legião de admiradores. Ao longo da carreira, gravou 50 LPs e 15 CDs, conquistando seis discos de ouro. Em 1963, no Rio de Janeiro, registrou uma de suas canções, “Nunca Mais Brigarei Contigo”, deixando mais uma página escrita na história da música romântica brasileira.
Mas até mesmo aqueles que vivem de cantar histórias podem, um dia, ser surpreendidos por uma história que não escreveram.
Em 2002, uma publicação didática do Governo do Piauí, intitulada “Educação sem Fronteiras”, trouxe uma informação que parecia impossível: dizia que Roberto Müller havia morrido ainda jovem. A notícia chegou ao próprio cantor de uma maneira quase surreal. Durante um show em uma churrascaria de Teresina, justamente quando era homenageado pelos seus 50 anos de carreira, um fã lhe mostrou o livro.
Roberto Müller estava ali. Vivo. Cantando. Recebendo aplausos. Enquanto um livro dizia o contrário.
O episódio levou o artista e seus advogados a ingressarem com uma ação indenizatória contra o Governo do Estado do Piauí. Era a vida real desmentindo, diante dos olhos de todos, uma página impressa.
Mais tarde, a vida lhe imporia outros silêncios. Em 2010, Roberto Müller sofreu um AVC, além de enfrentar um infarto e o Alzheimer. Seus últimos anos foram vividos em estado vegetativo, distante dos palcos que tantas vezes iluminaram sua trajetória.
Mas talvez a morte nunca tenha conseguido levar completamente Roberto Müller.
Porque algumas vozes continuam cantando mesmo quando já não podem mais cantar. Permanecem nas lembranças, nos discos, nas histórias contadas pelos fãs e naquela velha canção que, um dia, tocou o coração de alguém.
Roberto Müller partiu da vida, mas sua música ficou.
E, no fim das contas, talvez seja essa a forma mais bonita de não morrer: continuar vivo na memória de quem ainda se emociona ao ouvir a sua voz.
Ele deixa oito filhos, 20 netos e 10 bisnetos, uma família que agora carrega, além do sangue, o legado de uma vida inteira dedicada à música.
Despedida

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