Quando as mãos que cuidavam se transformam em saudade
Há médicos que tratam doenças. Há outros que, sem perceber, acabam tratando também o tempo, o medo e a esperança. Gustavo Sá Carneiro pertencia a essa segunda espécie. Médico recifense, clínico geral, imunologista, acupunturista e homeopata, partiu na noite desta terça-feira, 25 de agosto, aos 76 anos, deixando para trás mais de cinco décadas dedicadas àquilo que talvez seja uma das mais bonitas formas de servir: cuidar do outro.
Sua história se confunde com um tempo em que a medicina ainda aprendia a abrir novas portas. Formado pela Faculdade de Ciências Médicas da UPE, Gustavo foi buscar longe aquilo que ainda encontrava resistência por aqui. Estudou na Associação Francesa de Acupuntura e recebeu formação na Academia de Medicina Tradicional Chinesa, em Pequim, quando a acupuntura ainda era quase uma novidade nos corredores da medicina brasileira. Voltou ao Recife trazendo consigo conhecimentos, experiências e, sobretudo, a coragem dos que acreditam antes que os outros acreditem.
No fim dos anos 1970, participou de procedimentos cirúrgicos com uso de acupuntura para analgesia no Hospital das Clínicas. Eram tempos de descobertas, quando cada experiência carregava o peso de abrir um caminho que ainda não existia. Em 1981, coordenou o primeiro Congresso Brasileiro de Acupuntura, realizado na UFPE, reunindo profissionais que, como ele, enxergavam naquela prática não uma ruptura, mas uma possibilidade de ampliar os horizontes do cuidado.
Gustavo passou a vida entre consultórios, hospitais, livros, estudos e pacientes. Mas seria injusto dizer que sua vida coube apenas nos corredores da medicina.
Porque havia também a música.
E talvez poucos soubessem que, depois de guardar as agulhas, Dr. Gustavo podia encontrar outro jeito de tocar o mundo. Era compositor, contrabaixista e vocalista. Um homem de muitas notas, de muitos ritmos, de muitas paixões. Se durante o dia cuidava dos corpos e das dores, em outros momentos deixava que a música cuidasse dele.
Passou por grupos como A Banda Vermelha, Babajaba, Ciência Cínica, Cobaia Kid e BlusBroders. As duas últimas seguem existindo, como se a música também tivesse encontrado uma maneira de preservar um pouco de sua presença. E foi justamente com elas que Gustavo ajudou a escrever uma página importante da história cultural de Pernambuco.
Em 1993, Cobaia Kid e BlusBroders foram responsáveis pela abertura do primeiro Abril Pro Rock, festival que se tornaria um dos mais importantes símbolos da música independente pernambucana.
A história, como tantas boas histórias do rock, nasceu quase de improviso. Chico Science, da Nação Zumbi, e Fred Zero Quatro, da Mundo Livre S/A, estavam escalados para abrir aquele primeiro festival. Mas havia o peso da estreia, o receio de inaugurar algo que ninguém ainda sabia o tamanho que teria. Foi então que pediram ajuda.
Gustavo, com a tranquilidade de quem talvez já tivesse enfrentado desafios bem maiores na vida, respondeu de forma simples: “Pronto, eu abro”.
E abriu.
Há algo bonito em imaginar esse médico, pioneiro em tantas áreas, também ajudando a abrir, literalmente, uma das portas mais importantes da música pernambucana. Talvez fosse mesmo de sua natureza estar diante dos começos. Abrir caminhos na medicina. Abrir espaço para novas formas de cuidado. Abrir um festival que, anos depois, se transformaria em parte da memória afetiva e cultural de uma geração.
Gustavo era, de certa forma, um homem que não aceitava viver em apenas uma definição. Médico, pesquisador, professor de tantos saberes silenciosos. Compositor. Contrabaixista. Vocalista. Um homem que entendia que a vida também precisa de outras frequências.
E talvez sua maior obra não esteja registrada apenas em diplomas, congressos, prontuários ou palcos. Está nas pessoas que ele ajudou, nos profissionais que inspirou, nas canções que dividiu e naqueles que aprenderam com ele que cuidar também significa escutar.
Defendia uma medicina que enxergasse o ser humano por inteiro, conciliando os caminhos da medicina convencional com a acupuntura e a homeopatia. Talvez por isso compreendesse tão bem que ninguém é feito apenas de órgãos, sintomas e diagnósticos. Somos também memória, medo, esperança. Somos silêncios. E, às vezes, somos música.
Agora, quando suas mãos já não estarão mais sobre os ombros de quem buscava alívio, quando sua voz já não explicará os mistérios do corpo e quando o contrabaixo também sentirá a ausência de seus dedos, fica a sensação de que Recife perdeu um daqueles homens que ajudam a construir uma cidade sem jamais aparecerem nos monumentos.
A causa de sua morte não foi informada. Talvez porque algumas despedidas não precisem de explicações para doer. Basta saber que alguém que passou mais de meio século cuidando da vida agora parte, deixando aos que ficam a difícil tarefa de aprender a viver com a ausência.
E há uma certa beleza triste nisso tudo: um médico que dedicou a existência a aliviar dores deixa, naqueles que conheceram sua história, a única dor que nenhum conhecimento consegue tratar, a saudade.
Mas Gustavo também deixa som. Deixa o eco de uma voz. O peso grave de um contrabaixo. A lembrança de palcos, bandas, encontros e noites em que a medicina deu lugar ao rock.
Que sua memória permaneça como permanecem as coisas verdadeiramente importantes: silenciosa, profunda e presente. Nas histórias de seus pacientes, na lembrança de seus colegas, no conhecimento dos que seguiram seus passos, nas músicas que ajudou a criar e na medicina pernambucana, que hoje se despede de um de seus pioneiros.
Gustavo Sá Carneiro se vai. Mas alguns homens, quando partem, não deixam apenas ausência. Deixam caminhos. Deixam histórias. Deixam canções que continuam tocando, mesmo quando já não vemos quem as tocava.
E enquanto houver alguém caminhando por esses caminhos, lembrando de suas mãos de médico ou de seus acordes de músico, uma parte de Gustavo continuará viva.
Porque há vidas que terminam. E há vidas que, de tão intensamente vividas, continuam ecoando. A de Dr. Gustavo Sá Carneiro, certamente, continuará. Como uma música que a gente não consegue, nem quer, tirar da memória.
Despedida
O velório do Dr. Gustavo Sá Carneiro acontece nesta quinta-feira (27), das 9h às 13h, na Sala 02, do Cemitério Morada da Paz, em Paulista, Região Metropolitana do Recife, onde em seguida, ocorrerá a cremação.
Por Gabriel Diniz


Comentários
Postar um comentário