Há pessoas que passam pela vida deixando marcas. E há aquelas que, além de viverem, registram o tempo para que ele jamais desapareça. Homero Fonseca foi assim. Jornalista, escritor, contador de histórias e guardião da memória pernambucana, partiu neste sábado (22), aos 77 anos, vítima de um câncer de Pâncreas, deixando um silêncio profundo nas redações, nos livros e, sobretudo, na alma de quem teve o privilégio de ler suas palavras.
Natural de Bezerros, no Agreste, Homero construiu uma trajetória que se confundia com a própria história de Pernambuco. Pelas redações do Diario de Pernambuco, onde foi editor-chefe, da Folha de Pernambuco e da Revista Continente, ajudou a contar o Estado através de suas personagens, seus costumes, suas ruas, seus causos e suas contradições. Mas sua maior contribuição talvez tenha sido outra: ensinar que a memória de um povo também mora nas pequenas histórias que o tempo insiste em levar embora.
Homero tinha esse dom raro de transformar acontecimentos em lembranças e lembranças em literatura. Foi ele quem resgatou, em Viagem ao planeta dos boatos, a história do falso rompimento da Barragem de Tapacurá, em 1975, quando um boato espalhou pânico pelo Recife e por diversas cidades pernambucanas. Uma barragem que nunca rompeu, mas que acabou entrando para sempre no imaginário de um povo, e encontrou em Homero quem lhe desse uma segunda vida nas páginas de um livro.
Em Roliúde: um romance pitoresco, aventuroso e cinematográfico, levou para a literatura a saga de Bibiu, um contador de causos nordestino, misturando humor, fantasia e a alma sertaneja. Em Pernambucania: o que há nos nomes das nossas cidades*, percorreu os 185 municípios do Estado, como quem visita velhos conhecidos e pergunta a cada um de onde veio seu nome. E, ao escrever sobre Tarcísio Pereira, fundador da inesquecível Livro 7, Homero também ajudou a preservar a memória de um Recife que já começa a existir apenas nas fotografias e na saudade.
Mesmo no fim da caminhada, a literatura ainda lhe devolveu reconhecimento. Em 2024, recebeu o Prêmio Off Flip de Literatura, em Paraty, na categoria Contos. Como se a vida lhe oferecesse, já perto da despedida, mais uma delicada confirmação de que suas palavras haviam encontrado morada.
Agora, Pernambuco perde um de seus bons contadores de histórias. E talvez seja justamente isso o que mais entristeça: quem dedicou a vida a impedir que as histórias morressem agora deixa a sua própria história para ser contada por outros.
Homero Fonseca parte, mas ficam seus livros, seus personagens, seus causos e a memória de um Pernambuco que ele soube enxergar com olhos atentos e coração generoso. Fica também a saudade, essa espécie de livro invisível que escrevemos quando alguém se vai e que, ao contrário dos outros, nunca chega ao fim.
Que descanse em paz. E que suas palavras, continuem caminhando pelas ruas do Recife, pelas ladeiras de Olinda, pelas estradas do Agreste e pelas lembranças de todos aqueles que acreditam que um povo só permanece vivo enquanto alguém se dispõe a contar suas histórias.
Despedida
O corpo de Homero Fonseca será velado neste domingo (22), das 12h às 18h, no Cemitério Morada da Paz, na cidade de Paulista, no Grande Recife.
Por Gabriel Diniz

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