O cair da noite desta sexta (27) deslizou lento sobre o Recife Antigo, como se as horas fossem encaixadas com delicadeza numa engrenagem esquecida de recordações. No palco do Rock & Ribs, não se viam apenas guitarras e microfones, respiravam ali fragmentos de vidas, narrativas inteiras, ecos de uma geração disposta a revisitar o que já foi eterno.
A celebração do nascimento de Renato Russo acontecia como um rito íntimo, desses que não precisam de chama visível para iluminar. Quando a Legião Urbana Cover Recife surgiu, com Dido, Leo Magnum, Wagner Arcelino e Moacir Júnior, ficou claro: não seria apenas música. Seria deslocamento no tempo. Um mergulho.
Os acordes iniciais brotaram como quem abre antigas gavetas da alma. As sensações se alinharam sem esforço, quase por instinto, e os semblantes ganharam brilho próprio. Alguns se recolheram em si, olhos cerrados; outros sussurravam versos, como quem teme quebrar o encanto. Ainda no início, e já se percebia, algo atravessava o ar, tocando cada presença com leve insistência.
De repente, tudo suspendeu. Ou talvez tenha regressado. Quando certas notas preencheram o espaço, compreendeu-se: nada se perde quando permanece dentro. As vozes se entrelaçaram, formando um coro manso, como um exército de lembranças caminhando em harmonia, protegendo aquilo que nem os anos conseguiram dissolver.
Havia também aquele desconforto bonito, típico de quem já quis transformar o mundo. Um sopro inquieto, jovem, pulsante. A plateia entoava como quem ainda guarda fé, nem que seja apenas na possibilidade de reviver dias em que o impossível parecia próximo demais.
Entre uma canção e outra, surgiram gestos silenciosos: braços que se encontravam, olhares lançados ao alto em busca de algo antigo, quase esquecido. Alguns apenas escutavam, mergulhados em si, tocando origens invisíveis onde a saudade deixa de doer e passa a ensinar.
Quando a dúvida ecoou no ar, espalhando-se entre as construções antigas, que ali rodeiam, ninguém ousou responder. Não havia necessidade. Sentir bastava. Cantar bastava. Estar ali bastava.
A noite avançou nesse balanço entre certezas e perguntas, até que uma inquietação coletiva tomou forma mais uma vez, forte, firme, atravessando décadas sem perder o fôlego, como se o tempo não tivesse autoridade sobre ela.
Ao fim, restou um silêncio raro, não vazio, mas pleno. Um silêncio desenhado por acordes, memórias e emoções entrelaçadas.
E assim, nesta noite, o Rock & Ribs deixou de ser apenas um lugar. Tornou-se passagem. E Renato Russo, mesmo distante, parecia circular entre todos.
E há noites que se recusam a partir.
Por Gabriel Diniz

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