Recife perde a educadora e empresária Zélia Pereira, da Triunfo Delicatessen


Há pessoas que passam pela vida acumulando bens. Outras, acumulam histórias. Algumas deixam prédios, empresas ou patrimônios. Outras deixam algo muito maior: a lembrança do bem que fizeram. 

Na manhã desta segunda-feira (29), Recife despediu-se de uma dessas pessoas. Morreu a ex-professora e empresária Zélia Maria Pereira Cunha, aos 74 anos, encerrando uma trajetória marcada pelo ensino, pelo trabalho e pelo acolhimento.

Internada na UTI Adulta do Hospital Esperança, na Ilha do Leite, desde que sofreu um grave acidente automobilístico, Zélia lutou pela vida até seus últimos instantes. No veículo também estava seu esposo, que sofreu apenas ferimentos leves. O impacto mais violento atingiu justamente o lado onde ela estava sentada.

Nos últimos dias, familiares, amigos, ex-alunos e clientes uniram-se em uma corrente de esperança. A campanha pela doação de sangue mobilizou inúmeras pessoas que acreditavam que aquele gesto pudesse prolongar mais um capítulo de uma vida tão generosa. Mas, nesta manhã, o silêncio falou mais alto. E a luta chegou ao fim.

Quem conheceu Zélia dificilmente a lembrará apenas como empresária. Antes dos balcões, das vitrines e do aroma do pão recém-saído do forno, existia a professora. A mulher que fez da educação uma missão e compreendeu, ainda muito cedo, que ensinar nunca foi apenas transmitir conteúdo, mas também inspirar caminhos, formar caráter e semear futuro.

Seus antigos alunos talvez já tenham embranquecido os cabelos, constituído famílias e seguido suas profissões. Ainda assim, carregam consigo uma parte daquela professora que, um dia, acreditou em seus sonhos quando eles próprios ainda não sabiam sonhar.

Ao lado da família, Zélia também ajudou a construir um dos nomes mais queridos da gastronomia recifense: a Triunfo Delicatessen. Com unidades na Praça Chora Menino, na Boa Vista, e em Campo Grande, a casa tornou-se, ao longo de mais de cinco décadas, um lugar onde o Recife aprendeu que uma padaria pode ser muito mais do que um comércio. Pode ser memória. Pode ser encontro. Pode ser tradição.

Ali, entre cafés da manhã apressados, almoços em família, aniversários, reencontros e conversas sem hora para terminar, milhares de pessoas escreveram pequenos capítulos de suas vidas. E, sem perceber, também ajudaram a escrever o legado de Zélia.

Sua partida deixa cadeiras vazias, corredores mais silenciosos e corações entristecidos. Mas há ausências que não significam fim. Há pessoas que permanecem onde realmente importa: na gratidão de quem aprenderam com elas, no carinho de quem foi acolhido por sua presença e na memória afetiva de uma cidade inteira.

Porque algumas vidas não terminam quando o coração deixa de bater. Elas continuam existindo nas histórias contadas pelos filhos, nas lembranças dos amigos, na saudade dos alunos e nos lugares que ajudaram a transformar.

Recife perde uma empresária respeitada. A educação perde uma professora dedicada. Muitos perdem uma amiga. Uma família perde um de seus maiores alicerces.

E todos nós perdemos um pouco da delicadeza que ainda resiste no mundo.

A família ainda não divulgou informações sobre o velório e o sepultamento.

Por Gabriel Diniz

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