Dizem que o Brasil é o país do futebol. Talvez fosse. Hoje parece mais um reality show com chuteiras. Antes da Copa, discutia-se menos quem marcava gols e mais quem marcava encontro, quem namorava, quem terminava namoro e quem postava coração nas redes sociais. O esquema tático ficou em segundo plano; o algoritmo virou treinador.
Enquanto isso, lá do outro lado do Atlântico, a Noruega afiava seus remos. Vieram silenciosos, como quem só queria vender bacalhau e contemplar fiordes. Saíram levando nossa classificação e deixando um enorme chifre de viking fincado na testa do orgulho brasileiro. Não foi derrota. Foi um capacete nórdico encaixado na marra.
Perder para quem vive cercado de gelo até seria aceitável. Difícil foi ver a Seleção escorregar justamente quando o adversário parecia um grupo de remadores que resolveu largar o barco para brincar de futebol. O Brasil, que um dia sambou sobre o mundo, agora tomou baile de quem passa metade do ano sem ver o sol.
E fica a lição para quem insiste em dizer que beleza vence jogo. Não vence. Mas a feiura também não faz milagre. Se beleza não ganha partida, muito menos feiura. O problema nunca foi o espelho; foi esquecer onde fica a bola.
A imprensa, por sua vez, cumpriu seu papel com precisão cirúrgica: lacrou. Debates profundos sobre representatividade, penteados, dancinhas, posicionamentos e romances dominaram o noticiário. Futebol? Ah, isso ficou para depois. Resultado: a mídia preocupada em lacrar... e o Brasil acabou lacrado dentro da própria soberba, sem conseguir encontrar a chave.
Na terra do "six, seven", onde o sete a um virou idioma internacional, a Seleção também perdeu outra coisa: a aura. Aquela camisa amarela que antes fazia adversário entrar em campo rezando, hoje parece uniforme de influencer: rende engajamento, mas intimida cada vez menos.
Enquanto os vikings continuam na Copa, celebrando com bacalhau, hidromel e histórias para contar aos netos, o brasileiro volta ao velho ritual de procurar culpados, pedir renovação e prometer que "agora vai". É um ciclo tão repetitivo quanto propaganda de casa de apostas no intervalo do jogo.
No fim das contas, descobrimos que tradição não faz gol, camisa não cruza na área e likes não levantam taça. A bola continua redonda, mas o futebol brasileiro insiste em andar em círculos. E, desta vez, foi um barco de remadores que mostrou que remar na mesma direção ainda é mais eficiente do que remar contra o próprio ego.
Por Gabriel Diniz

0 Comentários
Poste o seu comentário: