A guitarra de Luiz Carlini se calou na noite desta quinta-feira (7), mas o eco de seus acordes continuará vagando pelas memórias da música brasileira como uma luz que se recusa a apagar. Aos 73 anos, morreu em São Paulo o músico e produtor que ajudou a desenhar, com delicadeza e fúria, algumas das melodias mais inesquecíveis do rock nacional. Internado no Hospital Metropolitano da Lapa, Carlini partiu deixando para trás um silêncio difícil de suportar para quem cresceu embalado pelos solos de Ovelha Negra e Agora Só Falta Você, eternizados na voz de Rita Lee.
A notícia foi confirmada pela família nesta sexta-feira (8), através das redes sociais do artista.
Carlini seguia na estrada, como sempre esteve. Integrava a turnê 50 Anos Luz, de Guilherme Arantes, quando precisou interromper a viagem para ser hospitalizado. Ainda no dia 11 de de abril, esteve no palco do Teatro Guararapes, no Recife, carregando consigo a mesma guitarra que atravessou décadas e gerações. Antes da confirmação da morte, companheiros de palco enviaram mensagens desejando sua recuperação, numa esperança quase infantil de que artistas assim fossem eternos.
Nas redes sociais, Guilherme Arantes escreveu palavras que pareciam nascer da própria dor: “Minha carreira musical é tão profundamente marcada pela sua genialidade, sua sonoridade única, sua companhia em estúdio e no palco, que posso dizer que você é um pedaço gigantesco de mim.” E talvez seja exatamente isso que Carlini tenha se tornado: um pedaço vivo da história afetiva da música brasileira.
Sua trajetória atravessou o nascimento e a consolidação do rock nacional. Ainda jovem, nos anos 1950, começou como assistente de palco de Os Mutantes, como quem observava de perto o nascimento de uma revolução sonora. Em 1973, fundou a lendária Tutti Frutti, banda que ajudaria Rita Lee a encontrar sua fase mais visceral e libertária. Depois, vieram Erasmo Carlos, Titãs, Barão Vermelho e tantos outros encontros em que sua guitarra não apenas acompanhava canções, mas lhes dava alma.
Luiz Carlini parte deixando riffs, memórias e cicatrizes doces no coração de quem ouviu sua música. Porque há artistas que não morrem por inteiro. Permanecem escondidos em um acorde antigo, numa introdução reconhecida ao longe, ou naquele instante em que uma canção toca e devolve, por alguns segundos, tudo aquilo que o tempo levou.
A despedida acontece ainda hoje, no Cemitério da Lapa. A causa da morte não foi divulgada, como se certas despedidas fossem grandes demais para caber em explicações.

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